We are apologize for the inconvenience but you need to download
more modern browser in order to be able to browse our page
13 de janeiro de 2013

Que Eu me proteja – Prefácio

A ideia é mais ou menos assim: você conhece alguém. Começam a conversar. Ele conta que faz mestrado em biologia, mas que a primeira faculdade foi filosofia. Tem dois filhos lindos, um deles estuda piano, faz natação e quer ser astronauta. O outro cursa o segundo período de direito, é mais sério e tem uma namorada – ela faz artes cênicas. Você olha para ele e vê que seus olhos brilham de admiração ao falar dos rebentos. É separado. O casamento não deu certo – os dois estavam muito focados na carreira e nos filhos. A ex está no Canadá defendendo seu mestrado em física quântica. Enquanto você ouve a história, traça um paralelo da sua – O que vai falar? Sua vida é tão interessante assim? Você concluiu a faculdade só porque precisava de um diploma para arrumar um bom emprego. Ele vai pensar que sou medíocre? – pensa, enquanto ainda admira seus olhos brilhando e sua vida cheia de histórias deliciosas.

Lá pelas tantas, duas garrafas de vinho vazias, você pergunta: E qual a sua religião? E já emenda que acredita em um ser superior, já tentou ser budista mas não tinha muito tempo para se dedicar aos rituais e decidiu rezar em casa mesmo. E completa: Deus mora dentro de cada um de nós. Respira fundo e aguarda pela sua resposta.

- Ateu? Como assim? Você não acredita em nada? Mas isso é possível?, indaga, um pouco inconformada. Ele diz que só não acredita em nenhum ser divino. Que sua mãe era católica e o levava à igreja quando era pequeno. Que foi batizado e chegou até a fazer a primeira comunhão, sem entender muito bem o que era tudo isso. Mas, quando entrou na faculdade começou a questionar, foi atrás de informações, perguntou aqui e ali, leu pilhas de livros sobre a evolução e também sobre o criacionismo. Leu a bíblia e chegou à conclusão que as histórias do evangelho não faziam nenhum sentido.

Você, ainda inconformada, pergunta se ele não se sente órfão de um pai celestial. Se quando está em crise, não necessita de um ser que explique o que está acontecendo ali. – E no leito de morte? Tem certeza que não vai se arrepender de tudo isso e pedir perdão ao criador? – Ele diz que não. Fim de papo.

Você vai para casa pensando que era bom demais para ser verdade. Que ninguém seria tão perfeito. Olha para o céu e pergunta – Como ele pode ser tão insensível?, enquanto ele vai para casa pensando que você é a pessoa mais encantadora que já conheceu.

Essa é uma situação hipotética. Porém, após conversar com crentes e descrentes, chega-se à conclusão de que não é muito difícil acontecer. Em geral, ao serem indagados sobre o que pensam do ateu, religiosos e pessoas que acreditam em Deus, mas não possuem uma religião, deixam escapar um olhar de desaprovação ou de perplexidade – alguns expressaram uma careta, mesmo que discreta, antes de pensarem em alguma resposta.

Afinal, por que pessoas comuns, homens e mulheres, que trabalham ou estudam, casados ou solteiros, sem filhos, com filhos – biológicos ou adotivos – com curso superior ou só o ensino médio, são marginalizados só pelo fato de não acreditarem em Deus?

O respeito às diferenças deveria estar atrelado a qualquer cultura. A qualquer religião. Deveria ser matéria obrigatória em todas as escolas – públicas ou particulares. Mas o que vemos são escolas ensinando o preconceito em suas cartilhas. Desprezando a evolução de um mundo globalizado, onde as informações – e a desinformação – brotam a cada instante nos computadores de jovens e crianças. Vemos apresentadores de TV fazendo associações absurdas de ateísmo a crimes hediondos. Pastores declarando guerras a homossexuais. Vemos insultos daqueles que aprenderam a ver o mundo de uma maneira só e ignoram as opiniões contrárias. Não percebem que é com essas opiniões diversas que aprendemos e nos descobrimos como seres humanos.

Só acreditar ou não em Deus não forma o caráter de ninguém. Existem pessoas egoístas, altruístas, honestas e hipócritas dentro das igrejas e fora delas. Isso é a condição humana. O preconceito existe principalmente naqueles que ignoram por completo o assunto e não querem nem saber do que se trata. Concluem que ateus não têm moral só porque alguém disse na TV ou porque têm preguiça de questionar conceitos passados de geração em geração. E com isso, esquecemos que esta questão vai além de querer ou não se relacionar com crentes ou descrentes. Existe um ponto fundamental para a quebra desse preconceito: o direito individual e constitucional que garante a todos, sem exceção, a liberdade de crenças. Tê-las ou não cabe a cada um. Repassá-las aos filhos também. Pesquisas e estudos mostram um avanço do ateísmo no Brasil e no mundo. Não podemos mais ignorá-los e nem associá-los ao diabo, como a igreja católica fez na Inquisição, ao levar milhares de pessoas à fogueira só por terem opiniões contrárias às suas doutrinas. Temos o dever de respeitar os direitos previstos no artigo 5ºe também o dever de cobrar do Poder Público a separação do Estado/Igreja prevista no artigo 19º2 - todos da Constituição Federal – para, desta forma, garantirmos uma real democracia no país.

1 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

2 Art. 19º. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público; II – recusar fé aos documentos públicos; III – criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Top
LOADING CONTENT