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6 de abril de 2010

Palavras

Sempre tive um fascínio especial por palavras. Uma vez, lendo a crônica “Palavras” da Adriana Falcão, tive a mesma sensação de Jorge Luis Borges quando disse que há textos que nos dão vontade de terem sido escritos por nós. Pela simplicidade, pela beleza e principalmente pelo funcionamento que elas apresentam. Eis um trecho: “A palavra nuvem, chove. A palavra triste chora. A palavra sono, dorme. A palavra tempo, passa. A palavra fogo, queima. A palavra faca, corta. A palavra carro, corre. A palavra palavra, diz o que quer. E nunca desdiz depois.”

Pensando em algumas palavras de que me arrependi de ter dito e outras que me arrependo até hoje — e em dobro — de não ter dito, lembrei de uma vez em que estava na sala de espera do meu dentista e na parede um quadrinho pendurado com aquele provérbio que quase todo mundo conhece, mas que ninguém lembra ao certo, e que diz: Existem na vida três situações sem volta: A palavra dita, a flecha (ou, para os tempos de hoje, a bala) atirada e a oportunidade perdida.

Analisando este provérbio, penso em quantas pessoas já perderam a oportunidade de se calar, usando as palavras de modo errado e perverso. Li em algum lugar que: para quem ofende, as palavras são escritas na areia, para o ofendido, são impressas no mármore. Não sei quem escreveu, fico devendo os créditos, mas lhe dou razão. Na maioria das vezes, aquele que perdeu a oportunidade de se calar nem lembra ao certo o que disse. O fato é que, em se tratando de palavras e principalmente da forma como são ditas, nem sempre se consegue desfazer o mal entendido. Acredito que, mesmo tendo o tal provérbio impresso e emoldurado, o meu dentista já tenha passado por isso algumas vezes e vou além, mesmo que eu imprima estas sábias palavras em letras garrafais e leia todos os dias, não conseguirei não cometer o mesmo erro, a oportunidade será perdida algumas vezes e a palavra dada não será devolvida, mesmo que eu me arrependa da oferta. As palavras de amor, por exemplo, dependendo do caminho do romance, podem se tornar tão deliciosas como dolorosas. As mesmas palavras. Os mesmos significados. Mas os sentimentos mudam todo o contexto.

Gosto das palavras sacanas, das palavras que não dizem nada, palavras que dizem quase tudo e, principalmente, das palavras que me deixam muda. Gosto de algumas palavras saídas da boca de um, mas não gosto das mesmas palavras vindas da boca de outro. Gosto de dar uma palavrinha com alguém. As palavras, quando escritas em um romance do Rubem Fonseca, são fascinantes, mesmo quando seu significado seja um palavrão. As palavras do Chico são doces, mesmo se tratando de uma desilusão. E enquanto estivermos lendo, falando, ouvindo e analisando, vamos nos completando, nos definindo e nos atribuindo um sentido, que é perdido e encontrado à medida que descobrimos mais e mais as palavras e seus significados.

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